Meu inglês não é para inglês ver
- Monique Prado

- 15 de mar.
- 3 min de leitura
Esse texto nasce do trauma e está contextualizado em dois diálogos pontuais que me fizeram sentir ridicularizada pela experiência de tentar me comunicar: na primeira situação com uma americana, enquanto que na segunda ocasião com uma inglesa. As duas situações aconteceram em momentos diversos, sendo a respectivamente em 2021 enquanto trabalhava na Câmara de Comércio Brasil e Canadá e na última, durante o intercâmbio nos EUA com outras 99 pessoas da Diáspora e do continente Africano, sendo essa única pessoa a que dizia “não me compreender”e a conjunção desses dois episódios me fizeram refletir alguns coisas.

De acordo com o International Center for Language Studies aproximadamente 1,52 bilhão de pessoas em todo o mundo falavam inglês (2024), de modo que o idioma é falado em 186 países. Ocorre que apenas 25% das pessoas que o falam nasceram culturalmente tendo o inglês como língua mãe, isto é, 75% das pessoas que articulam diálogos e circulam o inglês, não necessariamente utilizam o idioma porque gostam, mas porque o inglês e se impõe como um idioma de aproximação intercontinental.
Por certo que a língua mais falada vai carregar aspectos imperialistas, posto que se poe no centro. Isto é resultado da manobra histórica colonialista britânica que mais tarde no contexto do pós guerra passa o bastão para o imperialismo americano. Com efeito, o nosso processo de aprendizagem com idioma se instala numa performance obsessiva de “falar como um norte-americano fala”, ou dito de outra forma, performar aquele ator ou atriz famoso que carrega o sotaque do ocidente.
Ora, mas onde ficam os rostos e histórias das 75% pessoas que desafiam a ordem do imperialismo linguístico? É crucial lembrar que a linguagem é uma importante ferramenta de controle narrativo, visto que é ela quem vai produzir imaginários e transmitir a memória, organizando uma consciência coletiva e um construto social.
Como alguém que já fez alguns intercâmbios com pessoas das Américas e do continente Africano, sustento que devemos nos posicionar diante dessa linguagem e não esquecer das nossas identidades. Além disso, como professora da lingua inglesa, penso que é preciso estabelecer um outro caminho possível em que a negociação sonora, pronunciava e de expansão de sotaques estejam a favor de quem se relaciona: ora com a língua, ora com outras pessoas.
É preciso que para além da aproximação linguística, tenhamos a consciência que falar inglês é desafiar morfologias, estruturas gramaticais e semânticas, visto que linguagem é cultura e não é possível deixar de lado palavras que não foram inventadas pelo colono, mas que precisam ser “inglesadas” para ganhar sentidos semânticos. Nós daqui do sul global estamos comprometidos com um inglês counter-colonialist, a fim de sairmos das armadilhas hierárquicas de regular “ quem fala bem” e “quem não fala”, dada a vigência de uma lei universal que reproduz o imperialismo norte-americano, país que não respeita traços étnicas, historicidades e geografias. De um país que não se desloca do centro por nada.
Vale lembrar que para muitos de nós, o inglês não surgiu da vontade, do desejo ou do apaixonamento, pelo contrário, se impôs como fronteira do impossível, marcado pela urgência e pela precariedade diante das condições econômicas e geográficas.
Por isso, reforço, não confunda o seu desejo de comunicação com a fiscalização daquele que se põe como chefe do império. Nesse processo dialógico, tem o ouvido sangrento do colonizador, mas tem do outro lado, a escuta sensível de quem quer te compreender. O inglês que se mantém a serviço do imperialismo não nos interessa! O inglês precisa estar a serviço da uma posição aberta ao diálogo, plural nos sotaques e transcontinental nas possibilidades discursivas.



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