Corpo-algorítmico: uma categoria socioespacial-temporal
- Monique Prado

- 18 de mar.
- 4 min de leitura
Quando comecei a pensar nesse termo, corpo-algoritmo, meu objetivo era compreender a relação direta entre as instâncias digitais dentro do cenários das redes sociais e os efeitos no corpo na vida cotidiana. Esses dispositivos que numa história não tão distante eram tratados como mecanismo digitais, agora passam a produzir sentidos na experiência corporal cinestésica.

O termo CorpoAlgoritmo que carrega uma genese no encontro entre o digital e o corpo, é trabalhado pelo Núcleo Abantesma e mobilizado no campo da performance artística por corpo "jovens, queers e racializados", mas aqui aparesentamos em uma outra dinâmica teórica: a das ciências sociais, capaz de fazer uma leitura sobre a algoritmização do corpo, o do corpo-algoritmizado, ou ainda desorganizar esses fluxos.
A utilização do hífen para separar "corpo" e "algorítmico" se estabelece, por vez, como um cordão de passagem entre uma palavra substantiva e outra adjetiva, justamente para compreender que a qualquer momento essas duas instâncias podem ser desfixadas dado o seu carater, a priori, ncompatíveis. Ocorre que, o uso da palavra conjugada em "corpo-algorítmico" nos serve justamente para refletirmos se a aproximação é capaz de gerar outros sentidos, pois ao se invadirem passam a criar uma subjetividade. Corpo-algoritmico renasce entrelaçadas para configurar uma existência sócio-espacial-temporal, não só metafísica como cotidiana.
O que nos parece desafiar categorias ontológicas e semânticas: o que é corpo? Como o corpo se organiza frente às redes sociais e suas automações? Como criamos um certo distanciamento para continuarmos produzindo experiências? Estamos frente a uma nova organização de sentidos em que a nossa escuta, a nossa fala, o nosso tato, o nosso paladar, são diretamente influenciados por essa gramática instaurada pelas redes sociais?
Algumas são as hipóteses que nos levam a pensar como, para além de uma gramática, há também uma desorganização na espacialidade e temporalidade que provocam novos sentidos na forma como lemos a identidade, a subjetividade e o corpo.
Estaríamos nós diante de uma identidade digital algorítmica? E se admitimos essa identidade digital recriada nas redes, onde estão as noções de corporeidade desse corpo físico? Conseguimos perceber com distanciamento que algumas de nossas experiências cotidianas são mediadas pela inscrição do corpo na lógica dos algoritmos? Percebemos nos sentimos atravessados pelo tempo-espaço?
Da leitura pelo QRcode de um cardápio de restaurante que aboliu o menu impresso à forma como cotidianamente monitoramos a forma de existir e ser no mundo a partir das trends e das influencers, da checagem de nossos sintomas no google ou da consulta realizada para a tomada de decisões na nossa vida prática mediada pelos prompts, sentimos que não estamos somente diante de algo como "a internet das coisas", o corpo agora é a própria identidade-digital.
Nesse sentido algumas questões estão postas: 1) Experiência imersiva do corpo: A inscrição desse corpo em suas facetas reais e cotidianas tomado completamente pelas redes, ignorando, portanto, o campo físico que está ao seu redor; 2) o distanciamento completo: o corpo compreende que o campo digital é metafísico e, portanto, intangível na experiência cinestesica, preservando momentos que não serão capturados pelas redes; 3) presença-ausência do corpo, nessa terceira categoria semântica, o corpo se instaura e produz sentido em dois planos/dimensões "o sócio-digital, presentificado no sócio-espacial-físico” ao mesmo tempo.

Se as ciências sociais já enfrentaram a discussão acerca da presença do corpo de forma dicotomia entre natureza e construto social, nos parece viável encontrar um campo de discussão dentro dessas epistemologias que nos ajudam a agrupar ou dissociar maneiras de como o corpo se instaura no mundo, admitindo também possibilidades de invenções e invisível na corporeiradade.
Acompanho o pensamento crítico cujo objetivo é afastar categorias dualistas e/ou binárias eurocentristas que descartam possibilidades e se fixam apenas uma quando encontram uma via de leitura do mundo, criando categorias universalistas. Para pensar as nossas alteridades e diferenças é importante encontrar ao menos uma terceira via que nos ajude a aproximar o corpo e a corporeidade de insurgências e proposições que desorganizem esse universalismo também presente nas redes.
Um outro desafio posto é pensar o corpo enquanto forma, visto que em tempos de Inteligência Artificial, esses mecanismos hoje também forjam não só as identidades como também a semiótica e a imagem que circulam no universo digital e que produzem efeitos na maneira como nos apresentamos, vestimos, comemos e organizamos o nosso pensamento sobre corporeidade. Se antes eram os filtros, hoje são os prompts que criam “personalidades altamente corporificadas pela IA”. Anittas e Barack Obamas que são mais avatares, mas mimificações do real, confundindo a nossa impressão sobre o tempo, espaço e acontecimentos que cada vez ficam difíceis de identificar se foram criados ou se foram invenções.
Além da forma, o campo da linguística se readequa para incorporar palavras que outrora tinham outro sentidos ou que são inventadas e apropriadas no nosso cotidiano, como é o caso de curtir, compartilhar, postar, etc., são alguns desses verbos acionados já atrelados que acionam uma iconografia ao pronunciarmos. Ou seja, mesmo que estejamos fora das redes, ao falar curtir, nós imediatamente pensamos em um coração, ou stories, não pensamos em conto ou história, mas na postagem do instagram que dura 24 horas. Essas palavras ganham camadas semânticas que extrapolam o campo Digital.
Essa é uma elaboração em andamento que tenho realizado para observar como categorias semiotico-estético-políticas se movimentam em um momento cujas AIs ainda estão sendo desenvolvidas. Elas nascem a partir da interação entre corporeidade e redes sociais, mas transbordam em nossas vivências cotidianas, admitindo que as novas linguagens e os formatos dessas plataformas tem criado novas identidades que permeiam as nossas subjetividades, imediatamente no tempo do agora, produzindo catalogação de nossas características físicas, gestuais e sociais.



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